DESIGNING POLITICS
- Fernando Salgado
- 28 de fev. de 2024
- 6 min de leitura

Gostaria de iniciar esta reflexão com uma afirmação de Bernard Tschumi em Architecture and Disjunction: “Mesmo que o quisesse, a nossa sociedade não conseguiria escapar do seu próprio espaço. Apesar de produzir o espaço, a sociedade é sempre sua prisioneira.”
Neste caso, Tschumi reflete sobre a forma como o espaço criado pela arquitetura é condicionado e condicionante – em simultâneo – da própria sociedade que o produz. Isto é, uma vez que a arquitetura tem como propósito servir e proporcionar condições a uma sociedade e, ainda, refletir os seus valores, esta é condicionada pelo tempo e pela sociedade em que se insere. Por outro lado, esses mesmos espaços e as formas que a arquitetura constrói tornam-se, também, condicionantes, uma vez que estes influenciam efetivamente o ser humano no seu quotidiano (pensemos, por exemplo, na forma como os espaços dos centros comerciais, encerrados para o exterior, são feitos de maneira a perdermos a noção das horas a passar).
Ao contrário do que se pode pensar numa primeira análise, a arquitetura é um ato profundamente político. Aliás, a partir do momento em que o primeiro traço é desenhado, o projeto torna-se, por defeito, num exercício político (política num sentido lato, não no sentido estritamente político-partidário, como é comummente entendida).
Alienar a vertente política da arquitetura não significa simplesmente que um arquiteto opta por realizar projetos apolíticos, que se dedicam mais à beleza e à artisticidade dos edifícios que projeta. Não existe a escolha entre fazer arquitetura política ou apolítica. O que pode realmente acontecer é o arquiteto optar por não reconhecer tal dimensão (ainda assim, uma postura inteiramente política, diria eu… como o filósofo esloveno Slavoj Žižek costuma afirmar, o cinismo ideológico é a maior forma de ideologia).
Tomemos como exemplo o arquiteto Frank Gehry - autor do famoso Museu Guggenheim em Bilbau (edifício da imagem acima) - que revelou publicamente o seu total desinteresse pela vertente política e social da arquitetura: Gehry encara efetivamente os seus edifícios como esculturas gigantes que as pessoas podem habitar. A sua preocupação está direcionada para a criação de formas que causam sensações e emoções nas pessoas, tal como uma obra de arte. As questões financeiras também não fazem parte das preocupações do arquiteto, pois as formas inusitadas dos seus edifícios resultam frequentemente em custos excessivos que ultrapassam os orçamentos inicialmente estipulados. Contudo, o impacto político-social do museu Guggenheim em Bilbau é absolutamente inegável: deu, inclusive, origem ao conceito de efeito de Bilbau referente à renovação empresarial da cidade, profundamente associada aos princípios capitalistas do consumismo, lucro e propriedade privada, para além da função simbólica que as suas formas extravagantes desempenham para o sistema (a arte está muitas vezes ao serviço do capital, como uma espécie de forma de legitimação social). Perante estes factos, é interessante observar que a dimensão político-social evidente deste projeto é totalmente desconsiderada pelo próprio arquiteto aquando da conceção do projeto. Isto evidencia que, independentemente das intenções e preocupações do arquiteto, a arquitetura e os edifícios que esta produz não conseguem dissociar-se da política.
No meu entendimento, as formas e os espaços da arquitetura, quando desconectados dos seus usos e programas, são politicamente neutros. Tal como Tschumi afirmou, um espaço assimétrico não é mais ou menos politicamente revolucionário do que um espaço simétrico. Portanto, a dimensão política da arquitetura deve ser encontrada na relação entre as formas e os usos atribuídos aos espaços ou no modo como estes últimos são projetados ou concebidos. A arquitetura do Estado Novo de Salazar é um ótimo exemplo: o simples facto de uma janela para a rua ser grande ou pequena é, em si mesmo, politicamente neutro; no entanto, assim que nos inserimos no contexto político-social do regime do Estado Novo e pensamos na relação entre a janela e quem habita o edifício, e ainda, os possíveis usos, facilmente concluímos que era do interesse do regime manter as casas fechadas para o espaço público, de modo a não incitar o convívio social, a discussão de ideias e políticas e, eventualmente, uma revolução popular.
Por tudo isto, concordo com Slavoj Žižek quando afirma que a responsabilidade política e ética do arquiteto deve ser encontrada no reconhecimento da dimensão político-ideológica da arquitetura. Penso que o arquiteto deve projetar com a consciência de que está a agir política e ideologicamente na sociedade e que, como Tschumi destacou, está a definir os seus próprios limites. Contudo, esta responsabilidade implica também o reconhecimento dos limites da própria arquitetura, nomeadamente no que concerne à sua capacidade de mudar o mundo em que vivemos.
No que concerne à mudança de paradigma, a arquitetura constitui um instrumento válido (entre muitos outros) que está inevitavelmente dependente da alteração da mentalidade dos indivíduos e da sociedade para desencadear uma alteração social. A meu ver, a arquitetura não consegue mudar o mundo, mas consegue, sem dúvida, desempenhar um papel de catalisador social, no sentido em que é capaz de provocar reflexões, possibilitar perspetivas inovadoras e usos inesperados.
(ENG)

I'd like to start this reflection with a statement by Bernard Tschumi in Architecture and Disjunction: “Would we ever wish to do so, our society could not get out of its space. Even though it produces space, society is always its prisoner.”
In this case, Tschumi reflects on how the space created by architecture is simultaneously conditioned by and conditions the very society that produces it. In other words, since the purpose of architecture is to serve and provide conditions for a society and also to reflect its values, it is conditioned by the time and society in which it is inserted. On the other hand, these same spaces and the forms that architecture builds also become conditioning factors, since they effectively influence human beings in their daily lives (think, for example, of the way shopping centre spaces, closed off to the outside, are designed in such a way that we lose track of the time passing).
Contrary to what one might think at first glance, architecture is a profoundly political act. In fact, from the moment the first line is drawn, the project becomes, by default, a political exercise (politics in a broad sense, not in the strictly party-political sense as it is commonly understood).
Alienating the political side of architecture doesn't simply mean that an architect chooses to carry out apolitical projects, which are more dedicated to the beauty and artistry of the buildings they design. There is no choice between political or apolitical architecture. What can actually happen is that the architect chooses not to recognise this dimension (even so, an entirely political stance, I would say... as Slovenian philosopher Slavoj Žižek often says, ideological cynicism is the greatest form of ideology).
Take architect Frank Gehry - author of the famous Guggenheim Museum in Bilbao (the building pictured above) - who has publicly revealed his total lack of interest in the political and social aspects of architecture: Gehry effectively sees his buildings as giant sculptures that people can inhabit. His concern is with creating forms that cause sensations and emotions in people, just like a work of art. Financial issues are not part of the architect's concerns either, as the unusual shapes of his buildings often result in cost overruns that exceed the initially stipulated budgets. However, the social-political impact of the Guggenheim museum in Bilbao is absolutely undeniable: it even gave rise to the concept of the Bilbao effect, which refers to the entrepreneurial renewal of the city, deeply associated with the capitalist principles of consumerism, profit and private property, in addition to the symbolic function that its extravagant forms play for the system (art is often at the service of capital, as a kind of form of social legitimisation). Given these facts, it's interesting to note that the obvious political and social dimension of this project was completely disregarded by the architect himself when he conceived the project. This shows that, regardless of the architect's intentions and concerns, architecture and the buildings it produces cannot be dissociated from politics.
As I see it, the forms and spaces of architecture, when disconnected from their uses and programmes, are politically neutral. As Tschumi said, an asymmetrical space is no more or less politically revolutionary than a symmetrical space. Therefore, the political dimension of architecture must be found in the relationship between the forms and uses attributed to spaces, or in the way the latter are designed or conceived. The architecture of Salazar's Estado Novo is a great example: the simple fact that a window onto the street is large or small is, in itself, politically neutral; however, as soon as we place ourselves in the political-social context of the Estado Novo regime and think about the relationship between the window and those who inhabit the building, and also the possible uses, we easily conclude that it was in the regime's interest to keep the houses closed to the public space, so as not to incite social interaction, the discussion of ideas and policies and, eventually, a popular revolution.
For all these reasons, I agree with Slavoj Žižek when he says that the architect's political and ethical responsibility must be found in recognising the political-ideological dimension of architecture. I believe that architects should design with the awareness that they are acting politically and ideologically in society and that, as Tschumi pointed out, they are defining their own limits. However, this responsibility also implies recognising the limits of architecture itself, particularly in terms of its ability to change the world we live in.
When it comes to changing paradigms, architecture is a valid instrument (among many others) that inevitably depends on changing the mentality of individuals and society in order to trigger social change. In my opinion, architecture can't change the world, but it can undoubtedly play a role as a social catalyst, in the sense that it can provoke reflection, provide innovative perspectives and unexpected uses.
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